Entrevista Dr. Elisaldo Carlini

 

    A revista inglesa Addiction, realizou, recentemente, entrevista com o Professor Elisaldo Luiz de Araújo Carlini, cientista brasileiro que tem trazido contribuições importantes à farmacologia e epidemiologia do uso de drogas e influenciado profundamente a política sobre drogas no Brasil. O Dr. Carlini é Professor Titular de Psicofarmacologia do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina, membro da Comissão Internacional de Controle de Narcóticos - INCB do Conselho Econômico Social das Nações Unidas e membro colaborador do Expert Committee on Alcohol and Drugs Abuse da Organização Mundial de Saúde. Ele é ainda fundador e diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas – Cebrid, um dos centros mais importantes na área de pesquisas epidemiológicas sobre o uso de drogas no país. O Cebrid publicou recentemente o V Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes de Ensino Médio da Rede Pública de Ensino nas 27 Capitais Brasileiras, que é mais uma de suas pesquisas de importância nacional.

 

Como tudo começou:

   Elisaldo Carlini conta que seu interesse pela pesquisa científica começou durante o curso de medicina, na Escola Paulista de Medicina - EPM, atual Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, onde ingressou em 1952. Por influência dos professores José Ribeiro do Vale e José Leal Prado, percebeu a importância do progresso científico e tecnológico para que um país pudesse desenvolver-se. Segundo ele, a ciência parecia ser o que procurava para poder contribuir com a melhoria das condições de vida da população brasileira, desejo que o acompanhava desde jovem e que o levou a buscar a formação médica.Seu interesse pela psicofarmacologia começou por meio da leitura diária que fazia das revistas científicas disponíveis na biblioteca da universidade. Após completar seus estudos em pesquisa básica recebeu da Rockefeller Foundation uma bolsa de estudos que permitiu que passasse quatro anos nos Estados Unidos, onde pôde estudar no Departamento de Farmacologia da Universidade de Yale. O trabalho em psicofarmacologia nesta universidade era feito de modo a integrar as contribuições dos campos da psicologia, psiquiatria e farmacologia, o que contribuiu para que aos poucos fosse mudando seu foco de interesse para a abordagem comportamental, dentro da Psicologia Experimental.

 

O trabalho no Brasil:

    Dr. Carlini diz que durante os anos que passou fora, sempre manteve a intenção de voltar ao Brasil, mesmo tendo recebido propostas para permanecer nos Estados Unidos. O retorno foi cheio de dificuldades, tanto pela falta de liberdade científica (ele voltou ao País em 1964, ano de início do sistema ditatorial no Brasil), como pelos fatores econômicos, os baixos recursos destinados à pesquisa. “Era muito difícil lidar com essa situação, porque durante os anos em que vivi nos Estados Unidos, tive muito mais liberdade do que aqui, onde os fatores econômicos impuseram limitações severas, e parte da população não tinha recursos suficientes nem para satisfazer as necessidades elementares”.De volta ao Brasil, Dr. Carlini foi trabalhar na Faculdade de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, onde ele e um pequeno grupo de estudantes tiveram a oportunidade de começar o primeiro curso de pós-graduação em psicofarmacologia do Brasil.Em 1970, já na Escola Paulista de Medicina, começou a desenvolver um interesse específico por estudos experimentais sobre maconha (Cannabis sativa L.). Esses estudos renderam muitas publicações, que associados a outros, patrocinados pelo NIDA (National Institute on Drug Abuse - EUA), pela Organização Mundial de Saúde - OMS, e por agências brasileiras de fomento à Pesquisa, trouxeram uma reputação internacional para os trabalhos brasileiros nessa área.O interesse específico do grupo de pesquisa do professor na EPM era conhecer os efeitos da maconha na aprendizagem e memória, para descobrir como seu uso crônico poderia afetar as funções cognitivas. Ligando o interesse científico à preocupação social, escolheu o Nordeste brasileiro como campo de pesquisa, por ser uma área pobre do País e na qual a população tinha menos acesso à educação formal. Segundo o Dr. Carlini “Com base no que nós sabíamos sobre a vida dos brasileiros, pensamos nas pessoas do Nordeste, cujas vidas são caracterizadas pela subnutrição crônica. Queríamos saber se a maconha, quando consumida cronicamente, poderia induzir a comportamentos agressivos. Veio às nossas mentes que a maconha na região estava freqüentemente associada à violência. Assim, esta se transformou em nossa linha de trabalho, na qual analisamos se havia alguma conexão entre a agressividade e o uso de maconha”.

 

Epidemiologia:

    Outra área em que se destaca a atuação do professor Carlini é a pesquisa epidemiológica. Ciente da falta de informações científicas sobre a dimensão real do uso de drogas lícitas e ilícitas no Brasil, criou o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas - Cebrid, do qual é Diretor. O Cebrid é um dos centros de pesquisa mais importantes da América Latina na área, realiza estudos sobre o uso de drogas em diversos segmentos da população, como estudantes e crianças em situação de rua. A finalidade destes estudos é produzir informações científicas sobre o cenário atual do País.O Centro, desenvolve, ainda, outras duas linhas de trabalho: uma delas sobre as ervas medicinais que agem sobre o sistema nervoso central e outra sobre o uso popular de plantas para finalidades médicas. Além disso possui, também, uma linha de pesquisa puramente psicofarmacológica, laboratorial, mas que é conectada às características epidemiológicas, fechando o círculo entre a ciência básica e a aplicada.

 

Atuação Internacional:

    O Prof. Elisaldo falou a respeito de sua eleição como membro da Comissão Internacional de Controle de Narcóticos - INCB, e do convite para chefiar a Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa, cargo que o impedia de se tornar membro daquela Comissão. Ele decidiu assumir o cargo na Anvisa por acreditar “que é parte do papel de um professor universitário olhar para a natureza da sociedade em que a universidade existe”. Ele foi eleito novamente para atuar junto ao INCB, onde está atualmente, representando o Brasil em assuntos importantes. Entre os temas discutidos pela comunidade internacional está a classificação da maconha dentro das listas de convenções e a redução de danos.Contribuições para o BrasilJunto ao Governo brasileiro, contribuiu na formulação das políticas de saúde sobre drogas, e também no realinhamento da Política Nacional Antidrogas - PNAD, promovido pela Secretaria Nacional Antidrogas – Senad, em 2004. Por último, o Prof. Carlini discorreu sobre seus planos para o futuro: dar continuidade às ações do Cebrid; reformular vários meios de divulgação das drogas, que não correspondem à realidade (como os livros didáticos); e a vontade de escrever um livro sobre a utilização da maconha no Brasil, tentando esclarecer e desmistificar várias inverdades sobre o tema.Em vários pontos da entrevista, o professor falou da situação da pesquisa no Brasil, no que se refere ao seu financiamento, “Naquele tempo, e talvez ainda hoje no Brasil, você não sabe ao certo o que você terá, porque o orçamento leva um longo tempo para ser preparado. É revisto muito tarde no ano, e, de repente, sofre toda a sorte de cortes, e então você nunca sabe se terá o resto do que foi assegurado que você teria”. No que se refere ao preconceito com a produção científica brasileira afirma: “nós temos no Brasil, e talvez mesmo na América Latina, um determinado preconceito de que o que é bom na ciência vem de Europa, dos Estados Unidos ou do Japão”.